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Ignoti nulla cupido

Carminha Boa Vila

Ignoti nulla cupido (1)

J

á não lembro por que reparei em ti
se aquele dia acontecera qualquer coisa
ou se todos os dias vinham dar naquele
como se a vida fosse uma teia de aranha
à nossa espera

o teu olhar decidido
acordou-me do sono
das ausentes
das que vamos em paralelo
espreitando um horizonte ermo
cegas do quotidiano

quanto beijo derramei sobre o teu corpo
desconhecido
de amigo
quanta paixão estourou do poço
sereno
da tua espera silenciosa

nunca imaginei que uma boca
mil vezes escutada
pudesse esconder tanta delicia

foram dias sem ecos de conversas
só a maré do desejo nos movia
fluxo e refluxo
a devorar o tempo que perdemos

quam même (2)

onde estás neste luar

azul cobalto

altamente magnético

sem mi

rezo as três sílabas

do teu nome

premendo os nove números

que vão dar à tua voz

o que te faria eu

hoje

de achar-te

não deixarei

que também tu desapareças

como a lua
como o amor

lapsus carnis (3)

só um roce
e a ração foi para onde vão os globos
que se perdem
tinhas olhos de outono
e miravas doce
como o sol da tardinha
procurei-te a boca
como mordo os morangos no verão
de vagar
muito de vagar
tremias ao entrar no meu quarto
perdi-me na tua pele
nua e embriagada até tocar o azul
do êxtase
falas-te dela na alvorada
baixinho me pedias
más uma vez
só uma.

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1 Não se deseja a quem não se conhece (Ovídio, Arte de Amar, 3, 397).
2 (loc. fr. ) suceda o que suceder.
3 (loc. lat.) lapso de carne; pecado carnal ou acto sensual

 

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